Quinta-feira, Agosto 06, 2009

guardo em mim as tuas mãos

Imagem de Rafael Coutinho


esqueceste as tuas mãos no meu corpo
quando julgaste ter ido embora de mim…

e eu inventei nelas um sussurro
que vesti de mel e seda
para cobrir a minha mágoa

depois…

reinventei-me líquida
e suada deitei-me no desenho dos teus lábios

bebeste-me beijo
e no teu desejo me soubeste em ti

afastei-te-me então de nós
e voz permaneci na sombra do avesso do tempo
sem que me soubesses os contornos

e...

quiseste-me então retorno
no abrigo do teu corpo

voltaste quando me pediste
que me despisse do que fugi

E nunca mais levaste de volta as tuas mãos…


Cris (Do silêncio e da pele...)

Sexta-feira, Março 20, 2009

Conversando contigo...depois!






Amanhã vou visitar-te...

Vou levar comigo os únicos beijos q ainda te posso dar. Agora escolho-os apenas pela cor - sempre brancos - e pelo aroma...

Quando chego e olho o teu rosto, naquele sorriso preso numa pedra fria, já um pouco gasto pelos raios de um sol que continua a nascer todos os dias, servindo-te de manto, tento sorrir-te também para que saibas que cheguei e que ainda sei sorrir...

Coloco os meus beijos ao lado do teu rosto como se eu própria me aconchegasse no teu colo e sento-me sempre um pouco para conversar contigo.

Deveria talvez rezar quando te vou visitar. Foi assim q me ensinaram a fazer, quando era mais pequena... mas n sou capaz. Preciso de sentir q ainda me ouves. Preciso de conversar contigo!

É por isso que quando me sento e te olho a sorrir, mesmo que pelo meu rosto desçam algumas lágrimas q n consigo evitar, eu sei q me escutas e que sentes o aroma a saudade nos beijos q te dou.

Nessas alturas nem preciso cerrar as pálpebras para voltar aos momentos em que ainda tinhas aquele colo sem igual e me ensinavas a crescer e a conhecer o amor e a ternura.



Um dia disseste-me que quando gostamos muito de alguém nunca o perderemos. Acreditei em ti! Tu dizias-me sempre as verdades, porque me haverias de mentir nesse momento?... Mas quando partiste eu pensei que afinal não era sempre tão verdade o q me dizias. Eu gostava tanto de ti, pai... e tu partias assim! Sem sequer me dares tempo de te dizer adeus...



Hoje quando vou visitar-te sei sempre q afinal era mais uma das tuas verdades!... Sei agora q foi mais uma das formas q encontraste para me ensinar que a vida também doi... mas quando amamos muito alguém nunca deixamos de sentir esse amor. Foi assim q me ensinaste q o amor vale a pena e que a nossa capacidade de amar é maior do q alguma vez imaginámos...

E é por isso que quando te vou visitar ainda converso contigo como se ainda estivesse no teu colo.

E é por isso q quando te vou visitar te levo flores brancas, com o aroma mais doce q encontro... Porque era assim q sentia os beijos q me davas... e são ainda assim os beijos q te deixo, naquela jarra, ao lado do teu rosto...



As saudades... sinto-as cada vez mais intensamente, mas essa é a certeza q tenho q nunca me mentiste... que nunca te perderei... e que, onde quer q estejas, estás sempre comigo, aninhada no teu colo, imenso, bordado de ternura e afagos... e agora com a mãe tb ao pé de ti!



Sabes, poderia passar aqui a noite a agradecer-te todas as coisas que me deste e me ensinaste e acredita q a noite n seria suficiente... mas digo-te apenas um "obrigada": por me teres ensinado a viver sabendo o valor das palavras "verdade" e "amor". Deixaste-me assim a maior herança que uma filha pode herdar - A de te poder recordar-te sempre como um Pai a valer!



Um beijo do tamanho do universo!



Cris ( Conversas contigo... depois!)




Terça-feira, Março 17, 2009

Um dia aprendi a ler...

Foto: Cristina Fidalgo



Como alguns de vocês sabem, sou professora de Português. Mas tb sabem que quando entro nesta seara, onde as sementes vão crescendo, nem me lembro que o sou. Entro aqui sem estatuto profissional, apenas como alguém para quem as palavras são tesouros! Se hoje me refiro a este pormenor é, apenas, porque gostava de partilhar convosco o que me levou a gostar tanto do que faço... Partilhar o que se gosta é um dos meus princípios de vida. Apenas por isso o faço e, se de entre vós, conseguir que apenas um/a fique a gostar um pouco mais de misturar estes pequenos símbolos, a q se convencionou chamar de letras por forma a criar pequenas e simples palavras, que às vezes dizem coisas tão importantes e tão grandes, então darei por bem empregue o pedacinho de vida que dediquei a este canto e a esta mensagem, em particular!...

Ao longo do meu percurso escolar fui sempre uma aluna muito pouco brilhante a Português. Lia as obras que me impunham apenas por obrigação e somente quando não conseguia encontrar os seus resumos, ou um colega que me desse apontamentos já redigidos. Tudo me parecia insípido e maçador: legados velhos, que outros tantos velhos tinham deixado como herança _ daquelas heranças que, depois de arrumado o sótão, apenas um décimo do seu espaço fica ocupado por algo que minimamente se aproveite.
Não sou, nem nunca fui, materialmente ambiciosa por isso também esta herança pouco me dizia.
A par de tudo isto, nunca um professor de Português me tinha falado da sua disciplina com um pequeno brilho que fosse, no olhar!

Um dia, porém, vi-me na eminência de perder um ano da minha vida, apenas pq não conseguia entrar para o 12º ano se n completasse o 11º... e faltava-me apenas passar a Português!!!!
Contrariada, aceitei a única solução apresentada pelo meu pai e à qual n tinha meios de fugir: Explicações durante o Verão!
Claro que me senti a mais infeliz das criaturas quando imaginei a troca da praia pela casa do explicador, a toalha pelos livros e o mar por um quadro negro. Além de q tudo isto significava um enorme deficit nas minhas horinhas de namoro apaixonado... Mas, como contra factos não adianta argumentar e o meu pai era um doce, mas não admitia "mas", lá fui eu, mais triste que os tristes, num dia lindo de sol e de calor em q até os pobres passarinhos pareciam gozar com a minha cara.
O explicador era um Sr. já idoso, com uma linguagem erudita e tão feio q metia dó!... Mas tão lindo por dentro q dava gosto ouvi-lo!...
Não foi preciso mais do q uma explicação para q a ideia de suplício se esfumasse e em seu lugar nascesse uma grande admiração pela palavra. Aquele homem vibrava quando falava de Almeida Garrett, Eça de Queirós, Aquilino ou Junqueiro e todos os tais velhinhos que afinal começavam a não me parecer tão “chatos” assim...
O professor Jaime Vilar, assim se chamava aquele "artista das palavras", sorria por cada um dos seus poros quando falava, falava como quem respira, e fazia-me sonhar! Em cada obra que me ensinava, embrenhava-me nela como se eu fosse uma das personagens. Eu pousava os meus olhos nas páginas dos livros e entrava nelas de corpo e alma, vivendo cada uma daquelas vidas como se fossem minhas.
Quando acabava a explicação, sentia até pena... consolava-me apenas o facto de ter à minha espera, do outro lado da ria, um outro olhar brilhante e, desta feita, que brilhava por mim...

Chegado o exame, provei àquele homem q tinha valido a pena ter-me ensinado a ler um texto nas linhas e nas entrelinhas e, sobretudo, o ter-me ensinado a ler o q nem nas entrelinhas está...

Quando lemos um pedaço de escrita, não nos basta ler as palavras. Para desfrutarmos verdadeiramente do q está escrito, basta-nos tão-somente tentar imaginar os olhos do seu escritor tentando assim ler-lhe a alma. Na alma, sim, nesse pedacinho de nós e dos outros, que nem sabemos bem onde se encontra, está o princípio, o meio e o fim de qualquer história que nos é narrada, apresente-se ela sob a forma que se apresentar. Se nos limitarmos a juntar as letras e a repetir interiormente as palavras que alguém escreve, perdemos a alma do que nos quis dizer ou até daquilo que nos quis esconder...
Compreendendo tudo isto, eu concluí que me basta um livro ou apenas um lápis e um pedaço de papel para nunca estar só!
Foi nesse momento q resolvi ser professora de Português. Não almejo perfeição... essa só a quero em pequenos momentos, mas ficarei feliz se um dia souber que um aluno meu se apaixonou pelas palavras, como eu me apaixonei... se de alguma forma eu tiver contribuído para que alguém tenha aprendido a não estar só. Alguém cujo olhar emane brilho ou derrame lágrimas ao ler ou escrever o q quer q seja!...

Um beijo aos dois homens q me ensinaram a ler: o meu pai e o prof Jaime Vilar (onde quer q estejam!)


Cris (Do Jardim da Minha Alma)

Quarta-feira, Dezembro 24, 2008

Nesta manhã em que quero o Natal...





Acorda comigo nesta manhã em que quero o Natal
Ajuda-me a espreguiçar e a sentir os primeiros raios de sol
Sorri para mim no mesmo sorriso que te dou e que é igual
A todos os sorrisos que tomam o olhar por farol
E se misturam nas ternuras e carícias do amanhecer...


Vamos estender os nossos corpos para além da cama
Pisar o chão macio num contorno do que está para além de nós.
Podemos ser as luzes cintilantes da árvore, símbolo de quem ama
E darmo-nos os presentes divinos que ecoam para além da voz
E nos fazem, de vida e de amor, estremecer...


Abandona-te comigo num abraço para além do espaço e do tempo
Um abraço para esquecer murmúrios e lamentos
Daqueles em que os braços são só pele e mãos e desejo
E o coração num instante abarque o mundo
Para nos darmos de presente o presente mais profundo:
Um acordar pleno de nós... cobertos de beijos!

Cris (Tranparências)


Terça-feira, Novembro 18, 2008

Porquê?...

Fot: Cristina Fidalgo


Porque me encontra a noite tão perdida em mim
aninhada num canto do chão da minha alma
e da minha mão escondendo a palma
para me esquecer de recordar as linhas
escritas um dia com ramos de alecrim?

Porque resisto em escutar o amadurecimento das estrelas
quando sei que o seu brilho é guarida
e perdida a minha saudade precisa de se aconchegar nelas?

Porquê esta chama a gritar-me na pele
os ecos da tua voz e dos teus olhos
como se desgarrada da noite escura e inerte
a lua se deslaçasse em lágrimas e sonhos?

Porquê o sentir da loucura nas pontas dos meus dedos
e a agrura dum céu aberto e nu de azul
na orla de um pecado onde apenas o medo
me fez pensar q o cometi?

Porque... sonhando, olhei os restos do fim do dia
e perdi-me nos contornos das cores que escorriam de mim
aconcheguei-me nelas e sem querer
adormeci...




Ensina-me




Ensina-me
a permanecer no azul das águas
no sabor do sol
e no avesso das mágoas

eternamente...


Cris (Ecos)

Quinta-feira, Outubro 16, 2008

incógnita...




os dedos crispados na inquietude do tempo

espera que serpenteia no desespero da terra


veios desordenados de sopros e lamentos

pensamentos obtusos do inferno que os cerca


submersa a vontade fera

de quem espera

e tem por certeza

o incerto da verdade

e as paredes do pensamento


insonoro o pulsar mecânico do mundo

nas veias de um pensar que gera o pânico


inodoro o sentir do germinar do sonho

nas correntes do gargalhar profundo

de quem descobre o simples e velho dito

de que nada nesta vida é infinito


apenas um caminhar para parte incerta...


Cris (Ecos...)

Segunda-feira, Setembro 22, 2008

Beijos para ti!







Há beijos que são fios de prata


como estes que escorrem dos meus olhos


quando em momentos de saudade


olho as estrelas e lhes peço que sejam os meus lábios


e te beijem por mim




Lá do alto, onde moram


sorriem-me serenamente


e dizem-me que os beijos que os meus olhos choram


lhes chegam ao regaço e num repente


tos devolvem suavemente




assim...


como se entregues por mim




Há beijos que se vestem de flores


e servem de véu e manto


ao colo que me ensinou a ternura e o amor


e que agora me ensina a viver esta saudade


que não tem fim




São beijos perfumados de lágrimas e sorrisos


beijos que não têm lábios...




Mas são todos para ti!






Cris ( Conversas contigo... depois!)

Domingo, Agosto 10, 2008

Prometi-te as minhas mãos nas tuas...

E prometo-te as minhas mãos nas tuas... e os meus beijos sem lágrimas enquanto o teu corpo for permanência... e a tua voz um leve respirar!...

Prometi-te as minhas mãos nas tuas, mãe
e os meus beijos sem lágrimas
enquanto o teu corpo fosse permanência
e a tua voz um leve respirar

E tu soubeste dizer-me adeus tão de mansinho
e adormecer de uma forma tão serena
como um sol que ao fim do dia se deita aos poucos... muito devagarinho
acabando por esmorecer nos braços do mar

Agora que o teu corpo já se chama ausência
não me peças beijos sem lágrimas
porque eu não tos consigo dar
mas prometo-te que mesmo com o coração a doer
vou sempre saber olhar o céu e sorrir
como forma de te abraçar

um beijo, mãe
até sempre




Sexta-feira, Julho 18, 2008

No adormecer dos teus dias...





Há no adormecer dos teus dias um sussurro mágico, que vai além do encantamento, que me inebria e mantém inerte, ao sabor da vontade das íris extasiadas...
Olho-te para lá da distância e do recorte da solidão q transpiras... e respiro-te. Emprenho de ti o sal da vida e o ondular dos dias. Empresto-te as palavras para q possas vestir o voo das gaivotas de poesia e, em troca, ofereces-me a beleza dos flamingos em bando, rosando assim os meus sonhos , agora plenos de bailados graciosos e tranquilos.
Não me canso de te olhar no adormecer dos dias. De te olhar e de te sorrir...

Sabes-me a restos de infância e ao desabrochar dos sentidos... em ti deposito as pétalas de malmequeres desfolhados no seio da ânsia de viver , as lágrimas cristalizadas de mel desperdiçado em desgostos gaiatos e agora tão distantes, e aqueles sorrisos que transbordavam do peito nas horas das fogueiras a crepitar por trás dos acordes de uma qualquer guitarra perdida nos braços da lua...

Sonho-te ainda no adormecer dos dias, embalada pelo som dos beijos com sabor a fim do mar e a camarinhas... e sei-te minha cúmplice no relembrar dos pés descalços, gravados ao correr das tuas margens...

Olhar-te em silêncio no fundo dos meus versos é saber-te permanência naquele pedaço de alma que escolhi para guardar em mim a magia do adormecer dos dias no teu regaço, berço da lua...


Cris (Paisagens q não sei pintar)

Sábado, Julho 12, 2008

amanhecer...





Das tuas mãos nascem madrugadas
de sonhos, e sementes de alvoradas

Há marés de vontade nos teus olhos
e na tua língua o jejum de um dia santo
que conhece seu quebranto
no mais profundo de mim

Ahhh... e há sinais de sorrisos
nas pregas da tua pele
mel q em ti deposito assim
ao roçar de leve os teus lábios...


Cris (Dos meus lábios nasce a noite)