domingo, janeiro 23, 2005

Saudades...

Estou sentada neste canto como se numa página de um livro em branco, pleno de palavras ausentes escritas em tons de fogo. Debaixo dos meus pés, ainda descalços, sinto a força mágica de uma relva macia que rasga a terra húmida na urgência de sobreviver.
Ao meu redor é noite escura onde vagueiam ecos de gente feliz e restos de frio bordados de neblina mansa, perfumada de maresia. Adivinho veios de salitre nos olhos das vozes que se desgarram das ruas e se colam aos vidros das janelas do meu quarto.
Sinto cega, a noite, e absorta a lua nos reflexos adormentados das ondas entristecidas da ria. E pressinto a leveza do bailado das palmeiras ao som da brisa do fundo da cidade.

Fecho os olhos e abro serenamente a minha alma, janela virada para o mar, e pinto um farol no recanto mais profundo do teu olhar... e um fundo azul... e um abraço... e o sabor dos teus lábios. Guardo as tuas mãos nas minhas e entrego-te o meu sorriso...

De volta aos meus dedos, reparo que terei que inventar uma nova artéria, no meu peito, onde possa correr, livre, a seiva com que pintei este quadro que não cabe nos contornos de uma simples página de um livro em branco, pleno de palavras ausentes, escritas em tons de fogo a que simplesmente dei o nome de "saudades".


Cris (Sussurros fora do Tempo)

6 comentários:

bertus disse...

...assim não vale! não sabia que eras uma concorrente das artes...quando fizeres uma exposição gostaria que me convidasses.
Saudades é um belo tema português; figurativa?...ou expressionista?!
Fica bem, beijinhos.

Acabei agora mesmo um post...poético(?!)

Alexandre Sousa disse...

E assim se reinventa o sentir saudade

Cris disse...

Não é mt fácil que alguém, algum dia, me dê oportunidade de fazer essa exposição porque as tintas das minhas telas são palavras mas, quem sabe? Talvez os investidores em artes descubram q por acaso que também se pode dar cor às palavras...

Boa questão... entre estas duas formas considero-me mais figurativa q expressionista, uma vez que pego na minha folha em branco e começo a pincelar do concreto para o abstracto, amenizando as cores à medida q dou forma às palavras. No entanto,por vezes, distorço as formas de uma forma subjectiva, intuitiva e espontânea, o q me colocaria no campo do expressionismo, n fora o pequeno detalhe de tentar evitar o exagero.
Assim sendo, talvez me situe algures no espaço q medeia a arte figurativa e a expressionista.

Ainda achas q arriscavas a tal exposição?

Beijinho

Cris disse...

Alexandre,
A saudade reinventa-se a cada momento, a cada gesto...
E intensifica-se... mas eu gosto de sentir saudades!~

beijinho

bertus disse...

...quem disse que as palavras não têm cores?
Com alguma criatividade e...rotina, toda a gente expõe. O que estás a fazer aqui no teu blog senão a expor(te)?
Um beijinho para a "artista plástica". Intés!!

Heavenlight disse...

A Saudade é tudo isso que escreveste. É cheiro e fogo e brisa suave; é mar e rio e duna... acontece quando o objecto desse sentimento se reflecte em tudo o que contemplas e que é belo, e quando te desintegras em milhões de partículas para também tu fazeres parte desse todo, onde ambos se fundem em pensamento e alma.